O Brasil encerrou 2025 com os piores números de acidentes de trabalho de sua história recente. Segundo dados consolidados do INSS e do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, foram 806.011 acidentes registrados e 3.644 mortes — um aumento de 65,8% em acidentes e 60,8% em mortalidade em relação a 2020. Não se trata de uma crise passageira: é uma tendência de cinco anos de agravamento contínuo.
Esses números têm nome, rosto e endereço. São motoristas de caminhão, serventes de obras, alimentadores de linha de produção, vigilantes e motoboys. São setores específicos, riscos conhecidos e, na maioria dos casos, mortes que poderiam ter sido evitadas com gestão adequada.
⚠️ Recorde histórico confirmado: 2025 é o ano com o maior número absoluto de acidentes e mortes no trabalho registrados no Brasil desde o início da série histórica. O crescimento de 65,8% em cinco anos não é flutuação estatística — é falha sistêmica de prevenção.
Setores com Maior Volume de Acidentes
Quando analisamos o volume bruto de acidentes por setor econômico (CNAE), seis grupos concentram a maior parte das ocorrências. A saúde e assistência social lidera de forma expressiva, reflexo do contingente enorme de trabalhadores e da intensidade das atividades.
| # | Setor (CNAE) | Acidentes |
|---|---|---|
| 01 | Atendimento Hospitalar | 500.032 |
| 02 | Supermercados e Hipermercados | 204.277 |
| 03 | Administração Pública Federal | 177.078 |
| 04 | Transporte Rodoviário de Cargas | 143.367 |
| 05 | Pronto-Socorro e Emergências | 133.446 |
| 06 | Construção de Edifícios | 122.455 |
O setor de atendimento hospitalar concentra mais de 500 mil acidentes — isoladamente, um número maior do que todos os acidentes registrados no Brasil em 2010. Isso reflete não apenas o volume de trabalhadores, mas as condições específicas de exposição: turnos longos, esforço físico constante, risco biológico e violência no trabalho.
Setores com Maior Taxa de Letalidade
Volume e letalidade contam histórias diferentes. Os setores mais letais não são os que registram mais acidentes — são os que matam mais a cada mil acidentes. Aqui, o transporte rodoviário domina de forma alarmante.
| # | Setor (CNAE) | Taxa (mortes/1.000) |
|---|---|---|
| 01 | Transporte de Produtos Perigosos | 880,0 |
| 02 | Transporte Coletivo Municipal | 564,2 |
| 03 | Transporte Intermunicipal de Passageiros | 526,6 |
| 04 | Serviços de Vigilância | 350,1 |
| 05 | Construção de Edifícios | 238,1 |
📌 Dado crítico: o transporte de produtos perigosos apresenta taxa de letalidade de 880 mortes por mil acidentes registrados. Isso significa que a cada acidente neste setor, a probabilidade de morte é quase garantida — reflexo direto da gravidade das ocorrências envolvendo cargas explosivas, inflamáveis e tóxicas.
As Ocupações Mais Mortais de 2025
Cinco ocupações concentraram as maiores contagens absolutas de mortes em 2025. A presença do motorista de caminhão no topo — com quase 4.250 óbitos — é consistente com a predominância do transporte rodoviário nos rankings de letalidade.
- Motorista de Caminhão — 4.249 mortes: a combinação de jornadas extensas, pressão por produtividade, fadiga e condições precárias das rodovias brasileiras continua sendo a principal fórmula para mortes em acidentes de trânsito no trabalho
- Alimentador de Linha de Produção — 778 mortes: trabalhadores diretamente expostos a máquinas em operação, com risco de aprisionamento, esmagamento e amputação
- Servente de Obras — 741 mortes: queda de altura, soterramentos e exposição a equipamentos pesados sem proteção adequada respondem pela maior parte dos casos
- Vigilante — 551 mortes: violência como fator ocupacional; os dados de 2025 confirmam a gravidade do risco de homicídio em serviço entre profissionais de segurança patrimonial
- Motoboy / Motofretista — 427 mortes: a informalidade do setor, a pressão por entregas e o trânsito urbano caótico mantêm a categoria entre as mais vulneráveis
- Faxineiro / Auxiliar de Limpeza — 419 mortes: quedas, queda de objetos e exposição a produtos químicos sem EPI adequado respondem pela maioria dos casos
Construção Civil: Mortes Evitáveis por Causas Conhecidas
A construção civil merece análise separada. Com 122.455 acidentes e taxa de letalidade de 238,1 por mil, o setor combina volume expressivo com alta gravidade — e as causas são amplamente conhecidas e preveníveis.
Causas Principais de Morte na Construção
- Quedas de altura (~65% das mortes): responsáveis por quase dois terços dos óbitos, as quedas continuam sendo a principal causa apesar da existência de NRs específicas sobre o tema. Falta de guarda-corpos, andaimes inadequados e ausência de cintos de segurança são os fatores mais frequentes
- Choques elétricos (4–5% das mortes): fiação exposta, ausência de aterramento e trabalho próximo a redes energizadas sem desligamento prévio
- Soterramentos: escavações sem escoramento adequado, especialmente em obras de pequeno e médio porte com fiscalização reduzida
- Serras circulares e equipamentos de corte: operação sem proteção das partes móveis e sem treinamento específico — item recorrente em laudos de acidente
- Queda de materiais sobre trabalhadores: falta de redes de proteção, sinalização inadequada e ausência de EPI em zonas de risco
- Aprisionamento em máquinas: betoneiras, guindastes e equipamentos de içamento sem dispositivos de proteção ou bloqueio de energia
🚧 O paradoxo da construção: a NR-18 (Condições de Trabalho na Indústria da Construção) é uma das normas mais detalhadas do sistema brasileiro. As causas de morte em 2025 são as mesmas documentadas há 20 anos. O problema não é ausência de norma — é ausência de implementação e fiscalização efetiva em obra.
A Tendência 2020–2025: Por que o Número Cresceu?
O crescimento de 65,8% em acidentes e 60,8% em mortes entre 2020 e 2025 não tem uma causa única. É resultado de uma combinação de fatores estruturais que se agravaram no período:
- Subnotificação revertida: em 2020, a pandemia reduziu artificialmente os números por redução da atividade econômica e subnotificação; o crescimento subsequente parte de uma base deprimida, amplificando a variação percentual
- Expansão da informalidade: o aumento do trabalho por aplicativo e da terceirização colocou mais trabalhadores em funções de risco elevado sem cobertura previdenciária adequada
- Pressão por produtividade: setores como transporte, construção e logística operaram sob demanda crescente com quadros reduzidos, aumentando a exposição por trabalhador
- Déficit de fiscalização: o número de auditores fiscais do trabalho no Brasil permanece abaixo da necessidade para cobrir o universo de empresas; a probabilidade percebida de punição é baixa
- Maturidade desigual na gestão de riscos: grandes empresas avançaram no GRO/PGR, mas a maioria das mortes ocorre em pequenas e médias empresas com gestão de SST incipiente
O que Muda em 2026: GRO, NR-01 e Monitoramento de Saúde Mental
Os dados de 2025 chegam em um momento de transição regulatória importante. Duas mudanças em vigor em 2026 têm potencial direto sobre os números do próximo relatório.
Obrigatoriedade do GRO/PGR — Fiscalização Ativa
O Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) deixaram de ser recomendação para se tornarem obrigação legal com fiscalização ativa. Empresas sem documentação adequada estão sujeitas a autuação, interdição e responsabilização. A expectativa é que a pressão regulatória force movimentos em setores que ainda operam com gestão de SST puramente reativa.
Riscos Psicossociais no PGR — NR-01 Atualizada
A atualização da NR-01, em vigor desde maio de 2026, tornou obrigatório o inventário de riscos psicossociais no PGR. Isso significa que estresse crônico, sobrecarga, assédio e condições de trabalho adversas passam a ser gerenciados formalmente — com identificação, avaliação, controle e monitoramento. Para setores como transporte e saúde, onde a carga psicológica é fator direto de acidente, o impacto pode ser significativo a médio prazo.
🎯 O que os dados pedem: os números de 2025 demonstram que o Brasil precisa de menos reatividade e mais prevenção estruturada. A combinação de GRO obrigatório, fiscalização ativa e inventário de riscos psicossociais cria, pela primeira vez, uma arquitetura regulatória que pode dobrar a curva — se implementada de verdade.
Conclusão: O Que os Números Exigem
806.011 acidentes e 3.644 mortes não são apenas estatísticas. São famílias afetadas, capacidade produtiva destruída e um custo social que o Brasil não pode continuar ignorando. O sistema previdenciário absorve bilhões em benefícios por incapacidade; empresas perdem em produtividade, rotatividade e processos judiciais; trabalhadores pagam com o corpo e a vida.
A mensagem dos dados de 2025 é clara: as ferramentas regulatórias existem. As causas são conhecidas. O que falta é implementação — e a cobrança vem chegando, via eSocial, fiscalização do GRO e responsabilização civil e criminal. Empresas que ainda tratam SST como overhead vão descobrir, nos próximos anos, que o custo da prevenção é menor do que o custo da negligência.
Para organizações que querem estar do lado certo dessa virada, o momento de agir é agora — antes que os dados de 2026 repitam a história.